16.6.08

Casa de espelhos

reflexo reverso

nudez transversa
dilatada, disforme

isomórficos, alternos
não-ele, não-ela
ambos
se alteram

avesso inverso

por André Drago

15.6.08

UM GRITO CONTRA O HUMANISMO E O IDEALISMO!


Dialética é a típica visão de mundo daqueles que querem simplificar a realidade e enxergar tudo pautado em dicotomias... bem x mal, justo x injusto, direita x esquerda, belo x feio, corpo x alma etc. O que ocorre é que esta visão é típica do rebanho ressentido que, precisando se sentir seguro na existência, busca explicá-la de maneira simplista.


Nós criamos esta noção de ''Bem'' e ''Mal'', ''Justo'' e “Injusto'' devido a uma revolta contra a realidade. Uma revolta metafísica. Não aceitamos a realidade da maneira como ela é, com dores e prazeres. Queremos apenas o lado bom da existência! E criamos ilusões devido a isso. Explicações racionais ou religiosas (o que dá na mesma, pois ambas baseiam-se na busca da “verdade”, de um sentido no mundo) para o sofrimento na existência. Precisamos atribuir culpa a algo ou alguém, por que ''O que revolta no sofrimento não é o sofrimento em si, mas a sua falta de sentido'' (Nietzsche)! A busca pelo sentido surge da dor de existir.


Preferiremos colocar a culpa em nós mesmos (pecado) ou naquilo que está fora de nós (sociedade, família, amantes, trabalho, etc...) do que simplesmente entendermos que não existe motivo algum para estarmos sofrendo. A vida é assim: dores e prazeres. Criamos, devido ao nosso desejo de segurança, a religião, a ciência, as utopias... enfim, tudo aquilo que possa nos proporcionar um lugar no mundo, algo que dê sentido a nossa dor e que torne este mundo explicável e passível de ser controlado. “O homem preferirá ainda querer o nada a nada querer.” (Nietzsche)


A Vontade é o que move o mundo. Essa vontade se projeta constantemente para fora, como uma Vontade de Poder, de querer-dominar, de vencer resistências, uma sede de triunfos! Obter o máximo de prazeres e o mínimo de dores! Mas os impulsos que não se manifestam em ato, que não se transformam em ações, seja por fraqueza ou impossibilidade, se manifestam por outros meios... eis aí o surgimento da rebelião escrava na moral.


“A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento, a inveja, se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação”. (Nietzsche) O homem, esta fonte de impulsos, ao viver em sociedade, precisa limitar-se, privar-se da realização de todos os seus anseios. Para isto, busca limitar a ação dos outros, criando assim uma “igualdade na infelicidade”. Eis a origem da dita Justiça! O sentimento de igualdade surge dos reprimidos que desejam rebaixar ao seu nível os espíritos livres, aqueles fortes que transpõem as barreiras à suas vontades!


Sendo assim, é vivendo em sociedade que o homem se domestica, se torna “manso”. A falsa igualdade criada entre os homens pela fraqueza acaba por nivelar a todos, inclusive os fortes, os espíritos livres.


É devido a tudo isso, a essa tentativa de nos sentirmos seguros no mundo, de entendermos a existência e conseqüentemente controlá-la para aplacar nossa insatisfação perante a vida, que somos levados a querer adaptar o real ao racional (ideal), o ser ao dever-ser. Negamos a vida por que não querermos encará-la. Não queremos ser livres, preferimos agir de “má-fé”, como diz Sartre, ou seja, não queremos assumir a responsabilidade da vida, de nossos atos, em nossas mãos. É um fardo pesado demais para os fracos!

Por isso surge a idéia de liberdade coletiva, que nada mais é do que uma manifestação de fraqueza. Como o indivíduo não consegue assumir sua liberdade perante a vida, ela a joga para o futuro, quando todos forem livres. A liberdade coletiva, como a igualdade, nasce do sentimento de derrota. A própria palavra “liberdade” é contraditória com “coletiva”, visto que, se somos todos diferentes, como podemos erigir um modelo único de liberdade para todos? Quem determinará isso? Os intelectuais? Os revolucionários? A massa? Deus? O Estado? Por isso liberdade coletiva é opressão, é homogenização, é destruição das diferenças naturais entre os homens em nome de uma igualdade inexistente e desejada pelos fracos incapazes de assumirem seu lugar como indivíduos autônomos no mundo.


Se nada faz sentido, para que continuarmos existindo? Por que não sentamos no chão como as crianças inseguras que somos e choramos por pena de nós mesmos? Pra que prosseguir se não existe recompensa no final, seja ele o reino dos céus cristão ou o Éden comunista na terra? Esta é a resposta?


Muito pelo contrário! É a partir da perda da esperança, da crença no futuro ideal que encontramos nossa liberdade! Paramos de esperar e passamos a viver!


Albert Camus, existencialista, inicialmente amigo e depois rival de Sartre, afirmava que é justamente quando nos deparamos com o sentimento do Absurdo, ou seja, a falta de sentido da existência, que nos tornamos livres! Livres para criarmos nosso próprio sentido e sermos nosso próprio Deus! A única liberdade existente é a individual, que se manifesta na criação dos nossos próprios valores.


Daí em diante, surgem duas opções: ou se assume a própria liberdade perante a vida, com todas as conseqüências que isso trará, pulando no abismo da incerteza, ou se retorna ao estágio de ilusões, quando o indivíduo não se reconhece como livre, não quer encarar a realidade e continua a viver alheio a si mesmo, atribuindo sentido a existência. Por isso, ser livre é a sensação de felicidade advinda da coerência entre suas ações e suas idéias. Assim, a liberdade é individual, subjetiva e não depende de condições materiais, apenas do próprio ser. Para sermos livres é preciso VIVERMOS A LIBERDADE, não esperar por ela!


Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto a emoção condenam tal suposição. A razão diz que o indivíduo não pode lutar por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre todas as gerações da humanidade.


Dizer ‘só serei livre quando todos os seres humanos forem livres’ é simplesmente enfurnar-se numa espécie de estupor de nirvana, abdicar da nossa própria humanidade, definirmo-nos como fracassados.” (Hakim Bey)


Por isso atuar politicamente em nome de uma pretensa “liberdade coletiva”, ou em nome da “igualdade”, nada mais é do que uma reação de indivíduos fracos incapazes de aceitarem a realidade como ela é e de se impor a tudo aquilo que aparece como obstáculo à sua vontade. Freud explica. O desejo de ajudar ao próximo, o altruísmo, é a maior manifestação do narcisismo. Não existe auto-afirmação maior! O maior egoísmo consiste em querer moldar o mundo de acordo com seus valores e ainda ser reconhecido por isso! O generoso deseja o reconhecimento pelos seus atos e age como se fosse o detentor da verdade, o “libertador do povo”, quando na verdade "os que mais amaram ao homem lhe fizeram sempre o máximo dano. Exigiram dele o impossível, como todos os amantes." (Nietzsche).


Tudo se resume a UMA GRANDE MANIFESTAÇÃO DE INFANTILIDADE. Essas pessoas, todas crianças carentes, se refugiam no seu mundo ideal de justiça, no seu desejo pelo futuro, por não conseguirem enfrentar o presente e não se sentirem seguros, buscando de novo o seio materno, época na qual não precisavam realizar escolhas, arcar com a conseqüência delas e ainda eram amados incondicionalmente.

Para finalizar, por que esta obsessão, por parte daqueles que querem transformar a realidade, com o Estado? Por acaso acham que o poder está concentrado lá? Sim, eles acham! Mas de onde vem esta visão? Tudo veio de Rousseau, o pai da esquerda moderna, e como todo esquerdista um idealista, o qual acreditava ser o homem naturalmente “bom” enquanto a sociedade o corrompia.


(É incrível como temos a tendência de acreditarmos que nas épocas primitivas era tudo lindo e maravilhoso!).


Que miopia... a natureza é amoral! Não existe ''Bem'' e ''Mal'' presente nela! Nenhum ato é a priori bom ou ruim, já que somos nós os criadores de todos os valores. Criamos valores, ou seja, conteúdo para a realidade, ao analisarmos ela de acordo com um método, que se utiliza de uma linguagem. Portanto todos os conteúdos de valor são precedidos por formas de pensar que levaram até eles, formas estas extremamente diversificadas assim como os indivíduos. "Falar de justo e injusto em si carece de qualquer sentido; em si, ofender, violentar, explorar, destruir não pode naturalmente ser algo 'injusto', na medida em que essencialmente, isto é, em suas funções básicas, a vida atua ofendendo, violentando, explorando, destruindo, não podendo sequer ser concebida sem esse caráter." (Nietzsche).


É devido a esta visão de que a sociedade é ruim e o indivíduo é naturalmente bom que surge a visão de que, para mudar o indivíduo, basta mudar a sociedade, ou seja, tomar o poder do Estado. No entanto, afirma Nietzsche, "Toda filosofia que acredita removido ou até mesmo solucionado, através de um acontecimento político, o problema da existência, é uma filosofia de brinquedo e uma pseudo-filosofia".


Foucault pode nos ajudar. Na verdade, o poder está diluído na sociedade. Não existe superestrutura e infra-estrutura. O poder não se detêm, ele se exerce. Ele é ato, não potência. Todo poder vem acompanhado igualmente de um discurso de verdade que o legitima e ao mesmo tempo o reproduz, e vice-versa. Verdade e poder estão intrinsecamente ligados, o que nos leva a afirmar que não existe verdade, pois o que existe são discursos de verdade criados pela vontade de poder.


Logo, se o poder está presente em todas as esferas sociais (família, escola, hospício, prisão, trabalho, Estado, etc.) a atuação cotidiana dentro das limitadas áreas de cada esfera pode ser tão eficiente ou mais para transformar a realidade vigente, ou melhor, o sistema de verdades/poder existente, quanto uma atuação através de movimentos de massa que almejam a tomada do Estado. Na verdade é até mesmo perigoso essa tomada de poder do Estado sem uma anterior transformação dos discursos de verdade/poder, pois corre-se o risco de continuar a se reproduzir práticas antigas mesmo em uma nova sociedade, sendo este o maior erro e principal causa do fracasso de todas as revoluções!


Percebe-se que a lógica infra-estrutura e superestrutura foi totalmente aniquilada, assim como a noção de ideologia, pois para existir “ideologia”, pressupõe-se que existe também o seu oposto, ou seja, a verdade, e já que a verdade é uma manifestação de um discurso pautado numa vontade de poder, não pode-se falar em verdade, mas em discursos de verdade/poder. Logo, tudo seria “ideologia” e a verdade científica almejada pelo marxismo, positivismo e todos os demais discursos cientificistas não existiria.


Por fim, lutar por um pretenso ideal de justiça, liberdade (coletiva) e igualdade, além de ser uma manifestação de fraqueza, idealismo, uma fuga da realidade, um desejo de jogar para o futuro aquilo que não se concretizou no passado e no presente e que simplesmente nunca existiu na história da humanidade, também apresenta outra quimera que é a da impossibilidade de se discernir o quanto o seu discurso também não é fruto deste mesmo sistema de verdades/poder existentes, já que é impossível se pensar fora do momento em que se vive.


Conclui-se então que a situação é muito mais complicada do que se mostra e que os resultados pretendidos ao se atuar fora de si mesmo nunca serão os pretendidos, provavelmente até opostos. Mas todos os seres possuem a liberdade de se iludirem...


por Raul Galhardi

25.5.08

O ósculo





O ósculo se abre. E, de longe, contorna uma imagem. Leves choques acendem as extremidades de um corpo – o beijo de uma boca áspera. Deslocamento inerte – a luz imprime rastros bastante palpáveis. Atrasos – ondas curtas de euforia inócua. O foco é pleno, mas não distingue a figura que dissipa esse calor incômodo. Sons abafados ressoam muitas vezes, sem volume. Sem eco. Sem resposta. No frio enlace, algo me escapa. O ósculo se fecha.




André Drago
A pintura, de título "Ósculo", é de autoria de Vera Cymbron, que mantém o blog "Sentidos Ocultos"

22.5.08

Excerto

Um olhar para si


Ser humano é angustiar-se. Não há existência que não viva isso constantemente.

No entanto, viver é para poucos. Viver sinceramente, eu digo.

Por que sempre é possível refugiar-se nas ilusões, ou desistir.

Não condeno aqueles que desistiram. Condeno aqueles que se iludem.

Por que sei que viver é demasiado difícil e requer um exercício intenso de afirmação de si mesmo, mesmo sem ter aonde apoiar-se. Mas odeio aqueles que se iludem porque mentem para si mesmos. Ambos negam, porém.

A depressão, o momento máximo da angústia, faz parecer que vale a pena desistir.

Entretanto, aqueles que passaram por ela sabem que nada pode durar para sempre. O problema é se durar por tempo demais.

Não condeno os que desistem, mas não pretendo fazê-lo agora.

Hoje eu sou o escaravelho.




ÁPORO

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.


Carlos Drummond de Andrade



Por Raul Galhardi

16.5.08

Déspico

Ao caminhar em sua direção, a madeira daquela velha ponte rangia um pouco, mas isso parecia não atrair sua atenção. Parei um pouco antes de chegar ao seu lado, ainda num ângulo em que ele não pudesse me ver e disse "Oi". Ele calmamente se virou e, lentamente, subiu sua cabeça espiando-me por completo, até chegar ao meu rosto, calado. Fiquei um pouco constrangido e para disfarçar meu embaraço, sentei-me ao seu lado. Ele virou-se novamente e voltou a contemplar o oceano. Meio sem saber o que fazer, resolvi dizer algo:

- Eu sempre passo aqui quando venho buscar minha mãe. Ela vive na casa para idosos perto da cidade, logo no começo da estrada. Os médicos dizem que o clima daqui faz bem para ela.

Não há resposta. Aquela enigmática figura continua olhando para frente, ignorando-me. Talvez fosse um bruto ignorante. Talvez fosse só alguém sensível que estivesse admirando a paisagem, imerso em seus pensamentos, como se de fato eu nem estivesse ali. De qualquer forma, minha curiosidade atingia limites incontroláveis, e continuei:

- Sempre quando venho para cá e atravesso o porto, vejo você aqui. Neste mesmo local, sentado com as pernas para fora olhando para o mar. Há 5 anos, todos os finais de semana, eu faço este mesmo trajeto e sempre o vejo aqui. Parece até que você passa o dia inteiro aqui, pois já vim em diferentes horários pegar e deixar minha mãe e sempre o vejo. Após todo este tempo, não consegui controlar minha curiosidade. Enfim, posso lhe perguntar por que permanece neste mesmo local, nesta mesma posição, todos esses dias?

Ele parece continuar me ignorando. Não esboça reação alguma. Após um tempo, paro de olhá-lo e volto-me para frente, vendo o sol que se põe.

- O oceano traz uma sensação de grandeza, de unidade. Tudo está conectado por ele. Não só aquelas ilhas que você vê logo adiante, mas também todos os continentes presentes neste mundo. Se você conseguir imaginar isso, para de sentir-se sozinho. Às vezes fico pensando se alguém também olha para mim dessas ilhas.

Ele diz tudo isso com seu olhar ainda reto, imóvel e perdido, como se eu ainda não estivesse ali ao seu lado. Não digo nada. Após um breve momento, ele continua.

-É particularmente bonito à noite, quando as luzes de todas essas ilhas acendem e eu penso que elas estão tentando se comunicar comigo. Mas logo percebo que isso não faz sentido algum e volto à minha incômoda busca.

Eu me viro para ele, que continua.

- Mas seria mentira se eu dissesse que venho aqui apenas para contemplar esse gigante, para conectar-me. Algumas vezes pensei sinceramente em me jogar nestas àguas, mas não tive coragem o suficiente.

- Por que você está me dizendo isso?

Ele se vira e olha para mim, com a mesma calma e leveza do gesto anterior. Seu olhar é triste e sereno.

- Fiquei pensando se devia falar com você ou não. Resolvi por falar. Não era isso que você queria?

- Você não se sente incomodado por estar contando essas coisas para um estranho?

- Não, por que na verdade você não me é mais estranho do que qualquer pessoa desta cidade, daquela ilha, ou de qualquer uma destas ilhas e lugares deste mundo. Não se pode conhecer verdadeiramente ninguém.

Ele se volta para frente novamente.

- Quando fico aqui, olhando para o mar, lembro que existem tantos lugares neste mundo que eu não conheço e que nunca irei conhecer. Tantas pessoas, tantos momentos... como viver sabendo disso? Só um ser que pudesse estar em todos os cantos e que vivesse para sempre poderia absorver tudo que este mundo tem para nos proporcionar, mas parece que Deus foi egoísta ao guardar apenas para ele esse privilégio. Apenas um ser imortal e onipresente poderia desfrutar do todo. Eis então que surge uma questão: como continuar vivendo sabendo que Deus existe e que eu não sou ele? Como existir pela metade, imperfeito, sabendo que a perfeição existe? É demasiado doloroso.

- Mas não pense que eu acredito em Deus. Deus é um desespero que começa onde todos os outros terminam. Seria uma desonestidade intelectual se eu, sabendo de tudo isso, me rendesse ao transcedente, este lugar onde todos chegam após exaurirem a razão. Por isso continuo na minha busca incessante. Hunf. Parece que a felicidade e a quietude não fazem parte dos "planos" da existência...

Silêncio.

Quem é este homem?

- Você não se acha extremamente pessimista? Não quero discordar de você, mas não é possível enxergar as coisas de outro modo?

- E como poderia não sê-lo? Como sorrir enquanto todos não forem felizes? Um só será feliz se todos forem. Todos os seres são infelizes, mas quantos realmente sabem disso?

- Eu sou feliz.

- Você está satisfeito?

- Sim.

- Nada pode melhorar?

- Pode...

- Vê? É disso que estou falando. Somos movidos pelas nossas vontades, nossos desejos. Estamos sempre insatisfeitos. Não podemos simplesmente parar de desejar. A vontade se manifesta sempre em direção a algo, tangível ou não. Uma alternativa para isso seria a supressão total dos desejos, o anulamento da vontade, o ascetismo. Mas não acredito que isso seja possível, desejável e muito menos natural. Prefiro viver honestamente o meu sofrimento a ter que me refugiar da própria vida. O inferno está dentro de nós mesmos, não nos outros.

- Mas eu posso dizer pelo menos que sou mais feliz do que você...

- Sim, pode. A felicidade só é possível através do vislumbramento de uma desgraça maior, neste caso, a alheia. O limite de uma dor é outra maior.

Eu fico esperando que continue, mas ele se cala. Durante instantes, ele permanece inerte olhando para o horizonte. Estou espantado com este ser. Como pode ser tão calmo dizendo tudo isso? Eu penso em perguntar algo, mas não sei se devo. Hesito, mas, por fim, pergunto:

- Você não está esperando demais da vida, pedindo demais? Você quer tudo, a plenitude.

- E porque não querer a plenitude? O fim dos anseios, das dores, a felicidade de todos...

- Por que não é assim que a vida é.

- Então eu renego esta vida em nome do que ela não é. É por ela não ser tudo o que poderia que eu não a aceito. E busco. Espero conseguir sair daqui, incompleto e vivo. Tornar-se completo significaria unir-me ao oceano.

Após ouvir isso, percebo que já está anoitecendo. Fico encarando ele por alguns segundos, esperando algum gesto, algo mais. Olho para o relógio. Devo ir. Penso em dizer algo, mas o que poderia dizer? Acredito que tudo já foi dito. Pergunto seu nome.

- Meu nome é ...

Despeço-me e levanto. Saio dali. Ao caminhar em direção ao carro, olho para trás. O vejo na mesma posição anterior, como se eu não houvesse passado por ali. Embora não conheça este homem, desejo que ao retornar ele ainda esteja lá. Espero que ele não desista de buscar e não se entregue ao oceano.


por Raul Galhardi

5.5.08

Êxtase e Estase

esperamos o inevitável
esperamos o improvável
reunimo-nos em fila
seres estáticos

abrem-se frestas
na rija crosta de aço
fluidos misturam-se no asfalto
união de espíritos
colisão de carros

orgasmo do acaso
sujeitos do movimento
objetos do contato

estranho rito
de homens civilizados
aguardam docilmente
a selvageria do ocaso
sem nome, número ou lastro

propósitos misteriosos
o destino é sempre o ventre
quando devemos reconhecê-lo
e negá-lo

misticismo e gás carbônico
transe induzido pelo tráfego
seres extáticos


por André Drago

4.5.08

Aqui estou eu novamente do lado de fora de um hospital. Não gosto de hospitais. Não gosto de ver todos de branco, nem de imaginar as doenças que circulam lá dentro. Sabia que o branco no Japão simboliza a morte? Parece que os médicos descobriram.

Sento na calçada e encosto na grade do cemitério. Acendo um cigarro e dou uma tragada. A marca não interessa, pois o resultado final é o mesmo. Começo a pensar no quão mórbido (ou apropriado) é ter um cemitério ao lado de um hospital. ''Economiza tempo'', penso. Deus, como sou desprezível! Mudo logo de pensamento e lembro por que estou aqui. Não estou aqui porque gosto de hospitais, ou cemitérios, ou por que gosto de fumar sentado na calçada. Estou aqui por causa de Luana.


Nunca me importei com ninguém. Gosto disso. Assim ninguém se importa comigo também e com as besteiras que eu faço. Não que eu não precise de alguém, seja um lobo solitário ou algo assim, mas é que já me acostumei a viver dessa maneira. Com Luana é diferente. Imagine algo belo capaz de fazer sua imaginação voar. Nada se compara à Luana. Penso que fui um felizardo em poder viver ao seu lado. Fui? Não! Aqui estou eu de novo com minha amargura, meu pessimismo, falando dela no passado. Preciso pensar que tudo irá melhorar, que tudo terminará bem, pois... como é que é mesmo a frase? ''Tudo sempre acaba bem. Se não está tudo bem, então ainda não acabou.'' Isso. É assim que eu preciso pensar.


Quando percebo já estou acendendo outro cigarro. Ansiedade. Levanto e ando até a porta do hospital. Penso em entrar. Não. Eles não precisam de um bêbado fedendo a cigarro. Douglas e Verônica não precisam disso, Lúcia também não e muito menos Luana. Porra, mas que merda está acontecendo lá dentro? Que angústia! Sempre foi assim. Luana, por causa de seu problema, sempre necessitou de cuidados especiais. Eu, sempre que possível, a ajudei e estive ao seu lado, se bem que este ''sempre que possível'' não está adiantando muito agora.


Apago o cigarro e jogo a bituca no chão. Ando de um lado para o outro em frente à porta, pensando no que deve estar acontecendo lá dentro. ''Calma, não é a primeira vez que isto acontece''. Preciso me acalmar. Sento novamente encostado na grade esperando que nenhum pombo cague na minha cabeça.


Luana... que mulher! Que ser humano! Condeno Deus por ter feito isto com ela! Não me importo com nada, nem comigo, mas apenas com ela. Chorei ao seu lado quando sentia dor, segurei sua mão e não fiz nada. Nada do que precisasse. Ela dizia, ''Seu carinho basta.''. Não! Isso é mentira! Nunca se ama o suficiente, neste caso. Não quero chorar, mas parecia que não era isso que o futuro reservara para mim.


Eu não acreditava no que via. Estava em pé, mas minhas pernas tremiam. Não pensava em nada. Não conseguia sentir nada ao meu redor. Os pedestres aterrorizados, os enfermeiros e médicos desesperados, os repórteres curiosos e Douglas e Verônica aos prantos ajoelhados ao lado do corpo da filha, esmagado na calçada.


Aconteceu muito rápido. Ouvi um barulho de vidro se quebrando, e, antes mesmo que eu pudesse me virar ou a jovem que vendia flores ao meu lado gritar, ela já estava na calçada. A poucos metros de mim, eu via o corpo de Luana espatifado contra a calçada. Muita correria. Logo os enfermeiros saíram do hospital para ver o ocorrido e tentar fazer algo. Inútil. O caos já estava instaurado. Algumas pessoas vomitavam. Era horrível! Um pesadelo! E eu não conseguia fazer nada...


Flashes, câmeras, fios e mais câmeras. De onde saiu tudo isso? Acho que enquanto permanecia inerte, sem cair ou ficar de pé, a imprensa havia chegado. Abutres! Estava coberto pela multidão e acho que foi por isso que Douglas e Verônica não me viram, ou Lúcia, ao sair correndo em direção aos repórteres tentando agredí-los para que não mostrassem aquela cena hedionda em algum programa policial, como a atração do dia. Descartável. Efêmera. Não imagino como deve ser perder uma filha. Não tenho filhas. Tinha Luana e ela se foi. Como ela pode fazer isso comigo?!? Queria consolá-los, dizer o quanto ela era importante para mim, mas senti vergonha e, aproveitando que não fui visto, saí dali. Penso que foi melhor assim. Era meu último favor para ela. A pouparia desta última vergonha.

Coloquei um cigarro na boca ao chegar na esquina mas não conseguia acendê-lo, nem atravessar a rua. Comecei a chorar, discretamente. Hoje eu sabia o que me esperava. Tomaria todas e, quem sabe, ao acordar amanhã, me esqueceria de tudo. Mentira. Eu jamais me esqueceria. Coisas assim não acontecem todos os dias. Para gente como eu, só se ama uma vez.


por Raul Galhardi

2.5.08

Luar

A luz atravessa a fresta. Um feixe – um único feixe. Rajada – escorre vagarosamente do ventre ao chão, do chão à fresta. Sem feixe. Sem luz.

Peço que nos deixem.

Seu olhar é distante, infixo. “Se desfalecer, sonha?” Pergunto-me; talvez em voz alta. Seu olhar se fixa em mim.

Vento. Uma nova fresta – uma luz oscilante. Dispo-me. Aproximo-me – ele imóvel. Corto-lhe as roupas. Dispo-lhe. O abraço – afago seus cabelos. Ele treme. Afasto-me, ainda em seu colo, olho-o uma vez mais. Um outro abraço, um beijo. Seguro-o apertado, ele estremece forte, depois fraco, então não mais. Um líquido fumegante desce minhas costas.

Seu olhar é distante, fixo...

Levanto-me. A porta. Desejo água. Bastante.

A água percorre meu corpo e deixa-me, rubra. Visto-me. E a lua me ignora. Sob o galho de uma árvore me deixo ver. Estendo a mão, alcanço uma fruta, toco-a com meus lábios, sorvo seu sumo.

Sumo.


por André Drago